Tardou. Pareceu uma eternidade. A sensação
física não era pior que a espiritual. No meu peito, obviamente, um vazio.
Engraçado (apenas ligeiramente
engraçado), é que este vazio
era maior que o espaço ocupado pelo meu coração. A ausência do som costumeiro
feito por ele, num velho ritmo conhecido, era ensurdecedora, irritante até. Mas
isso tudo era, digamos, suportável, talvez pela previsibilidade da física e da
biologia.
Mas, confesso, a ausência espiritual
foi algo quase insuportável. Digo “quase”, porque, caso ele se demorasse mais alguns
segundos, eu não estaria mais à sua espera. Teria descumprido a promessa. O
fato de conhecer sua ausência física agravou o vazio espiritual e potencializou
todas as demais preocupações. Sim. Preocupei-me com as aventuras dele fora do
meu corpo. Pensava coisas descabidas (ou não!) como: “estaria
ele sentindo frio?”; “Sofrido algum arranhão”; “Encontrou-se
com outros corações a vagar por aí e esqueceu o caminho de volta?” Sabe como é. Estamos falando
do MEU coração, portanto...
O que mais atordoava meus
pensamentos era a expectativa acerca dos pedidos que havia feito a ele (aqueles
sobre voltar “leve”, carregando apensa o
que valesse a pena). Pensava na possibilidade de ele voltar mais pesado ainda
ou, pior, tão leve e vazio que estranhasse o espaço que deixara em meu corpo.
Por vezes seguidas perdi o sono, perdi a fome, perdi as lágrimas e o riso.
Apesar de ciente de que esta era uma
experiência, acima de tudo, atemporal, na minha pele e na minha mente, ele
estava fora há décadas. O que consistia mais um motivo para que ele voltasse
diferente, preferencial e ousadamente do jeito que havia lhe sugerido. Mas, há
um pequeno detalhe: a vontade própria do meu coração que, até então, não
conhecia.
Num dado momento, quando já não
suportava mais minha respiração artificial, sem profundidade, deitada de costas
n aminha cama, sinto algo sobrepor-se ao meu peito como que rasgando a pele,
rompendo músculos, quebrando ossos e remexendo tudo dentro de mim para
acomodar-se. Ele estava de volta. E, do modo como retornou, deveríamos, no
mínimo, ter um dedo de prosa (como diria minha avozinha).
Certamente, um tanto desconfortável
com uma dor suave que se espalhava pelo meu corpo inteiro eu decidi iniciar a
conversa. Sabia. Deveria ser direta. Tinha pressa em saber de tudo e, mais, em
me livrar da angústia de conjecturar como seriam meus sentimentos de agora em
diante. Primeira fala:
-
Por que chegou assim, de surpresa?
-
Não me disse que precisaria de permissão para retornar.
-
É. Não disse.
-
Além disso, já havia feito muito mais do que me pedira que fizesse.
Este “muito mais” causou uma pontada
gélida no meu umbigo. (Um-bi-go... não sinto frio no estômago como todos, mas no
umbigo..., mas isso é uma outra história). Continuei o que mais parecia um
interrogatório. Mas eu não queria interrogar meu coração, queria conversar com
ele. Assim, decidi ser mais branda e ouvir mais do que falar.
-
Pois, bem meu saudoso e amado coração, me conte tudo que viu, sentiu e ouviu.
-
Primeiro, senti muito frio fora do seu peito. Não sabia o que era sentir frio.
Depois, senti muita solidão, também não sabia o que era isso. A luz lá de fora
quase me cegou, pois até então, só enverguei através dos seus olhos e você
sempre os protegeu da luz muito forte. Para tentar entender o que estava
acontecendo comigo, tracei uma estratégia de sobrevivência sem você.
Aproximei-me de outros corações. Cada novo instante me apegava a um coração
diferente. Às vezes, mais velho que eu, ou mais jovem, mais ou menos feliz que
eu, mais ou menos apaixonado.
-
Isso deve ter sido incrível pra você. Imagino que você, depois desta “longa”
aventura, tenha se tornado um coração mais sábio e, conseqüentemente, tenha
sido capaz de fazer tudo que lhe pedi.
-
Não se engane minha querida. Estou mais sábio, sem dúvida, mas nem por isso
mais capaz de atender seus pedidos.
-
Como não?
-
Descobri que, um coração não é tão diferente do outro assim. O que mudam são as
prioridades de cada um. E, quanto a isso, você, que é meu “abrigo”
e seu espírito tem uma grande parcela de responsabilidade. São vocês quem
decidem o que ocupa maior espaço em nós.
-
Não concordo. Muitas coisas que sinto – como as dores de amores, por exemplo
– não foram escolhidas. Ninguém em sã consciência deseja sofrer de amor, deseja
perder um ente querido ou padecer da dor da saudade.
-
É justamente a ordem e os espaços que você estabelece para os sentimentos e
para as pessoas aqui dentro que desencadeiam todas as lágrimas... Ou todos os
risos. Conheci corações, cujas prioridades são as coisas. São corações
embrutecidos, não tem muitos amigos e moram num corpo que não sorri, possui uma
fisionomia sombria e carrancuda, acha que todos o perseguem e desconfiam de
toda e de qualquer aproximação. Outros corações reservaram amplo espaço para a
generosidade, para o amor incondicional, para a tolerância. Estes são os mais
felizes. Habitam corpos sorridentes e luminosos, corpos que também choram, mas
o choro justo e não medíocre ou oportuno de muitos. Estão sempre rodeados de
amigos. Amigos VER-DA-DEI-ROS.
Conheci também um terceiro tipo de coração, o qual considerei mais pernicioso
que o primeiro: o coração indiferente. Nele há espaço para tudo e para nada.
Entra e sai quem quer. Nada ali cria raízes ou deixa suas marcas boas ou ruins.
Tudo nele é superficial: a cor é um vermelho descorado, não bate com força, não
quer companhia. Ele não está, de verdade, habitando aquele corpo e aquela alma.
Tive medo deste coração. Afastei-me logo dele.
-
Isso é triste. Dói.
-
Mas, enfim, quanto ao que combinamos quando parti, como disse, não depende de
mim a leveza ou o peso que sente no seu peito, escolher a quem amar mais ou
aquém querer menos. Porém, sinto – me feliz em retornar para teu peito.
Nesse momento, senti um aperto
diferente no peito. Não era aquele aperto de angústia. Era um aperto que mais
parecia um abraço. Meu coração me abraçava. E pude experimentar uma sensação
ímpar de gratidão e de afeto tão fortes que não parecem deste mundo. Por fim,
ele disse.
-
Eis me aqui de volta. Também tenho livre arbítrio e decidi voltar para você,
para seu corpo que me abriga e para seu espírito que me acolhe. Aqui sempre
coube um pouco de tudo que encontrei de bom “lá fora”: generosidade, amor
incondicional, paixão (embora muitas vezes, você quebre a cara, mas mostra sua
ousadia),
um tanto de tolerância, quase nada de ganância (o que pode até ser ruim dependendo do
ponto de vista, se bem que, no momento final, seremos apenas “nós”... nada
material estará conosco...). Ah!!! Estava me esquecendo. Voltei, principalmente, porque
aqui ainda há espaço de sobra pra você acomodar muitos outros sentimentos e
pessoas... Quanto a mim, posso prometer ajudá-la.
Serei seu guardião. Sempre que alguma mágoa quiser se alojar aqui dentro,
tratarei de expulsá-la. O rancor, o desamor, o egoísmo e todos os sentimentos
que minam “nossa casa terrena”
e que impedem que perdoemos que amemos desinteressadamente e que vivamos
plenamente não encontrarão moradia aqui... E olha que não será tarefa fácil.
Mas, aprendi a te amar e farei isso por NÓS!
-
De minha parte, também farei uma promessa. Manterei meu corpo em festa. Assim
como havia prometido quando você partiu. Com muitas cores e muito brilho
no olhar. Pedirei o mesmo ao meu espírito. Sei das dificuldades de cumprir tal
promessa, mas é aí que reside o desafio. Você voltou por amor a mim. E farei
isso por amor a todos aqueles que se aproximarem. Creio que estaremos bem
assim... Não acha?
-
Só mais um pedido... Posso?
-
Todos!
-
Não me peça mais para deixar teu corpo, apenas cuide de mim, do seu espírito e,
aí sim, estaremos bem!